Despertar é preciso



Ao olharmos com atenção para o mundo que nos cerca e, principalmente, para o mundo que somos, percebemos o potencial predomínio da inconsciência, apesar de, no geral, todos desejarmos uma vida melhor, inclusive, com mais significado. Alguns diriam até que seria preciso viver de propósito, como se o bordão, por si só, tivesse algum valor, servindo para algo mais que seu uso como mera ladainha.

Considerando que o inconsciente não estaria apenas fora do campo de percepção do sujeito, mas, na realidade, dirigiria a própria consciência ou, ao menos, aspectos importantes dela, se insistirmos na prática de olhar, escutar e sentir com atenção, sendo o mais presentes que conseguirmos em cada tentativa, acionaremos um de nossos preciosos recursos, preparando-nos para o que é conhecido em alguns círculos como a genuína prática da atenção plena.

Naturalmente, não se trata só de ficar ou permanecer em posição de lótus ou mesmo de se perder em qualquer tarefa ritualística, mecânica, dedicando horas a fio, por exemplo, à recitação de mantras (ainda que, dependendo do contexto, tal conduta tenha, sim, relativo valor), como se isso bastasse para a obtenção do, às vezes, tão sonhado despertar, para muito além das fantasias que o uso de chavões tende a estimular, contraditoriamente, mantendo a pessoa numa prisão ainda mais densa.

Como bem enfatiza uma das grandes vozes dos pampas gaúchos, a legítima percepção requer que o sujeito acorde primeiro, em vez de permanecer no estado sonambúlico que, infelizmente, acomete a muitos, mesmo dentre os frequentadores assíduos de templos, monastérios, sangas etc., para que avançasse o processo que promoveria, de fato, a consciência de si, do outro e de tudo o mais que lhe habita; enfim, retirando a venda que ofusca o olhar, afastando as sombras que entorpecem a alma.

Então, daremos um grande passo nessa jornada se reconhecermos que não há soluções infalíveis ou receitas prontas, sendo, aliás, a incerteza a regra, a despeito de que, por outro lado, render-se à desesperança também não seja a saída. Afinal, para quem resistir ao cortejo nefasto que tende a nos assediar, a vida continuaria, de um modo ou de outro. E, se tem que ser assim, que seja, preferencialmente, com consciência, para podermos, neste sentido, viver de verdade, em vez de apenas sermos espectadores na trama da existência.



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